Bem - querer

Cheiro verde

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Tem lugares que parecem não pertencerem a este espaço-tempo. São refúgios. Lugares escondidos e isolados onde a vida pode ser mais leve e o ar mais puro. Lugares onde banho de bica e o cafuné ganham conotações diferentes e passam a ser vitais para a sobrevivência. Aquele lugar em que a garrafa de café e o silêncio, mesmo que em companhia, é sinônimo de afeto. E esta é uma pequena história de dois amigos e um refúgio.

A sensação de leveza já começa na viagem. A cidade e o caos vão ficando para trás. Dois amigos, uma sacola de disco, uma coca-cola (sim, uma para dois) e muito papo. Qualquer outra coisa que não faça parte desse cenário não é bem-vinda. Os celulares são esquecidos, os outros são só os outros. E o mundo todo passa a caber dentro de um carro.

A paisagem que corre apressada pela janela fecha o cenário. O cinza do concreto vai sendo tomado pelo verde. As construções passam a ficar mais distantes. O riso se mistura com a música e a calmaria é instalada. As rugas de preocupação suavizam, os ombros relaxam e a expectativa para afundar dentro de uma rede é quase tão grande e urgente quanto as ideias discutidas por eles dois. A maior preocupação de ambos é qual disco será o próximo e se o café da beira da estrada estará aberto para esticar um pouquinho mais aquele momento.

O sol se despede do dia e a estrada escurece. Dentro do carro, o universo paralelo, nada foi alterado. A única coisa que cresce é a expectativa pela chegada. Os sorrisos agora são mais leves. E ambos passam a fazer planos para os dias de calmaria. É interessante esse lance de alma gêmea. E eu não falo de amores. Falo de amizade mesmo. É sobre ficar calado ao lado de alguém e o silêncio também ser companhia. É sobre o silêncio que fala.

Quando a sensação de paz é completamente instalada, os dois amigos sabem que chegaram ao seu destino. O refúgio. O lugar onde as crianças ainda estão acordadas apesar da hora. Onde a lanterna é brinquedo. Onde a mesa da cozinha é encontro.

O que acontece durante os dias que seguem podem ser resumidos, de uma maneira muito simples, em conversas, abraços, xodó, cafuné, banho de chuva, almoços e cafés. O refúgio é um lugar onde mal algum faz morada.

Lá o tempo corre diferente. As horas são contadas em músicas. Os dias, em xícaras de café. O despertador é a chuva que bate no telhado. O bom dia é regado de preguiça e afeto no sofá. Eu sei, parece só mais uns dias no interior. Mas não é. Pergunte aos dois amigos. Talvez, eles consigam explicar. Não é só calmaria. Não é só amizade. Não é só banho de bica. É cheiro verde. É Caymmi.

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