Cidade

Dona Cida

Saí do trabalho apressada. Uma parte da minha cabeça ainda pensava na lista de e-mails que ficaram por resolver e a outra já estava nos dois outros compromissos que eu ainda tinha naquele dia com tão poucas horas. “E eu ainda queria assistir um episódio novo daquela série”, pensei enquanto atravessava as portas de vidro do prédio principal.

O caminho entre o estacionamento e ponto do ônibus nunca pareceu tão longe. Os sapatos apertavam meus pés e eu me arrependia a cada passo pelo dinheiro pago neles. Esperei alguns bons minutos até o ônibus virar a esquina. Por sorte, ele estava vazio. Dei um “boa tarde” mecânico e sem vida alguma para o trocador de cara emburrada e me acomodei em uma cadeira no meio do corredor. Suspirei e relaxei. Peguei aquele que é meu melhor amigo nessas horas, coloquei os fones de ouvido e deixei Belchior cantar o 3×4 da fotografia.

Estava distraída com a canção quando senti um aperto no meu braço. Tomei um susto. Olhei para um lado e uma senhorinha com um sorriso gentil falava comigo e gesticulava apressada. Baixei o volume da música e olhei atentamente para ela sem tirar os fones do ouvido. Ela apontava para o sinal de trânsito e eu não estava entendendo o que ela queria me dizer. No meio da avenida um menino de no máximo uns 14 anos cuspia fogo.

– Minha filha, isso é fogo de verdade?

Ela me perguntou com espanto e inocência de uma criança

Ri e respondi:

– É sim. Eles colocam um liquido, tipo gasolina, na boca para fazer o truque.

A explicação veio das aulas de teatro que eu fiz na infância. Por um segundo devaneei e fui parar no palco do Teatro Nadir Papi Saboya vestida de chapeuzinho vermelho. Voltei à realidade com a risada da senhorinha ao meu lado que ria e batia palmas para o menino cuspidor de fogo no sinal. Olhei ao redor e percebi que só ela de fato prestava atenção nas peripécias do menino.

O sinal abriu e ela mostrou decepção pelo fim do show. Dei uma moeda para o menino que passou correndo pela janela. Ela me olhou e perguntou quantos anos eu tinha. Ri e respondi enquanto guardava o celular e os fones de ouvido na bolsa e prestava atenção melhor nela.

As roupas eram simples, a cabeça tinha poucos cabelos e todos eram branquinhos. Ela tinha cheiro de leite de rosas e mãos de quem já lutou muito nessa vida. Ela parecia disposta a engatar uma conversa.

Nos 15 minutos de viagem que separaram o meu trabalho do terminal de ônibus do Papicu conheci a história de Dona Cida. Em seus 78 anos de vida era a primeira vez dela na capital alencarina. Veio acompanhar a sobrinha, de 17 anos, que sofreu um acidente e estava internada no Hospital Geral de Fortaleza. “Minha filha, tive que aprender rápido a andar por essas ruas. É gente demais, né? E o povo aqui não se conhece. Não senta na calçada”.

Ouvi atentamente tudo o que ela tinha para dizer. Do espanto com o menino que cospe fogo à falta de gente com quem conversar. Perguntei se a sobrinha ia ficar bem, ela disse que sim. Ela está esperando por uma cirurgia que Dona Cida não sabe quando vai acontecer. “Eles arrumaram até um cantinho pra mim. Lá no hospital”. Disse agradecia. “É um povo muito bom. Tem uns travesseiros e um lençol”, concluiu.

Não entrei em mais detalhes. Provavelmente, Dona Cida tem menos do que merece. Mas, acredito que tem gente muito boa no caminho dela. Para chegar aos 78 anos com a pureza de uma criança que ri do menino que cospe fogo no sinal e com a força de quem não tem medo do novo para ajudar quem se gosta, Dona Cida merece só coisas boas no caminho dela.

Ao chegar ao terminal, perguntei se ela precisava de alguma coisa. Ela me olhou de uma maneira que me senti acolhida e respondeu “não preciso de nada, meu anjo”. Despedi-me e desejei a ela sorte. Ela me retribuiu com um “Deus te abençoe”. Agradeci de novo e fiz uma prece silenciosa por ela, por mim e por todo mundo que vive apressado demais para não rir do menino que cospe fogo no sinal.

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