comportamento

Mas qual é o seu medo, menina?

 

medo

Estou encarando esta página em branco já faz um tempo. Pensando, no que devo escrever aqui. A verdade é que escrever sobre aquilo que nos assombra é absurdamente difícil. Você tem medo? Eu tenho vários.

Medo.

É uma palavrinha tão pequena e tão forte. Segundo o dicionário, o medo é  um “estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência”. Medo pra mim não cabe no dicionário.

Quando eu tinha 10 anos, fui com a minha mãe ao parque de diversões.Na época, assim como hoje, eu tinha medo de tudo. Depois de muita insistência da minha irmã menor – que sempre foi muito mais corajosa que eu – nós resolvemos andar na roda gigante. É claro que eu estava com medo. Admito: eu achei legal. O vento, a altura e as luzes. A cidade pequena lá de cima. Parecia as miniaturas que eu tanto gostava de colecionar. Porém, quando a nossa cadeira chegou ao topo, tudo ficou escuro. Faltou luz. Um apagão geral. E o medo voltou com toda força. Ficamos presas lá em cima, balançando junto com o vento. Eu tava com muito medo. E eu nunca esqueci aquela sensação. E, de um tempo pra cá, tenho me sentido de novo a menina que ficou pressa na roda gigante.

Eu não sei se o que sinto é exatamente medo. No sentido completo da palavra. É uma sensação que fica ali, me obrigando a olhar para os lados. Um receio, um frio na barriga – que até me deixa dormir, mas não muito bem. É ansiedade pelo futuro e um pouco de apego pelo passado. Não é arrependimento, é a dúvida sobre as escolhas que fiz.

Não tenho certeza se fiz as escolhas certas ou se ainda as farei. Quando a gente vai crescendo, as escolhas vão ficando mais difíceis. A vida não é uma prova a que, após assinalar as respostas, dali a um mês a gente recebe o resultado e pode tentar de novo. Não é assim. A vida corre. E quando você pisca, passou. Não dá pra estudar antes pra cada matéria e garantir o nosso melhor desempenho em todos os itens. A gente só vai e faz. Depois, esperamos pelo gabarito, torcemos e pedimos o tempo todo que o resultado seja favorável. Não, você não tem férias da vida. Você espera por uma resposta, fazendo outra prova. É um teste infinito.

É assim mesmo e acontece com todo mundo. Mas, o que assombra são as respostas que nunca teremos. Tem coisas que a vida não diz o porquê. E é daí que sai a sensação de medo.

É medo do desconhecido, do novo. Eu  não posso ir em frente sem as respostas, porque eu tenho medo. Como eu vou arriscar? E se acontecer de novo?  Como é que vou fazer questão  número 5 quando terminei a 4 sem saber se entendi direitinho todos os conceitos e se fiz a escolha certa?

Sim, fazer escolhas erradas é normal. Todo mundo é suscetível a erros e não há mal nenhum nisso. Mas, o medo fica ali. Pra te lembrar que você já errou uma vez. E dependendo as consequências desse erro, o medo pode paralisar você.

Aí, nesse momento, você volta as escolhas. Paralisar ou ir em frente? 

Seria mais fácil se, por algum acaso, um sinal do destino mostrasse que estamos no caminho certo. Que tudo não foi em vão, que ficou para trás o que precisava ser deixado. Que tá ruim agora, mas vai melhorar.

A solução para esse impasse é ver as respostas até onde elas não existem. Eu sei, parece conselho de biscoito da sorte. É uma coisa chata de ouvir. E não é o único caminho. Você pode escolher abrir mão de tentar o novo e ficar na segurança do passado. Não julgaria alguém que fizesse essa escolha. Eu entendo. Mas, eu acredito que a vida sempre pede mais.

Quando não é para dar certo, acredite, as respostas negativas são as primeiras que chegam. Porém, se coloque novamente nos trilhos. Levante, coma uma hambúrguer com as amigas, curta a cidade ao lado de quem escuta você. E se prepare para tomar novas decisões.

Eu sei, às vezes parece em vão. E como cansa… Se a gente fez uma escolha, foi porque nosso coração mandou que fosse assim, e, naquele momento, aquilo era tudo para gente. perder algo valioso é a pior sensação do mundo. E ninguém vai entender ou sentir aquilo que você tá sentindo. Não vou mentir, talvez nunca cicatrize de fato. Vai doer sempre um pouquinho. Porém, faz parte.

O segredo de tudo está na confiança. Você aprender, crescer e lidar com o que fez – tomar cuidado para não fazer novamente. Mas jamais deixei o medo tomar conta de você. Guimarães Rosa disse que o que a vida quer da gente é coragem. Deixe de lado esse tal do “não devia”, não dá para deixar isso tomar conta de você. O passado já foi.

Viver é solucionar problemas. E, por vezes, nos encolhemos, nos sentimos frágeis, incapazes. Os problemas se tornam maiores do que nós. É porque ninguém é forte o tempo todo. Nós sentimos medo.  Fraquejar é ser humano. Sentir medo nos torna mais humanos.

Porém, não dá para viver assustado. Porque, assim, o medo transforma as pequenas barreiras cotidianas em obstáculos gigantes. Nos tornamos covardes. E a vida não perdoa covardes. Ela quer coragem.

Lembra da roda gigante? Eu senti muito medo. Mas, por incrível que pareça, meu coração acalmou depois de um simples diálogo:

-Mãe, eu to com medo.

– Eu também, filha. Mas, já que ele passa. E quando a gente descer, vamos tomar soverte.

Pronto. Pensei no soverte e não no medo. E tive coragem. 

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