comportamento

Viver é ser atropelado diversas vezes, Belchior.

Belchior; Cantor
Belchior em 1977. FOTO: DIVULGAÇÃO.

 

Publicado originalmente: 21.09.2016

De um tempo para cá, os meus dias têm sido embalados pela voz de um rapaz latino-americano que, apesar de não ter dinheiro no banco, transformou a solidão em presença. Cada verso de poesia parece se encaixar perfeitamente dentro daquilo que sinto. E acredite, é reconfortante. É aquela sensação de não está sozinha no mundo. É mais ou menos assim, alguém conseguiu transformar tudo aquilo que você está sentindo em música e agora – pelo menos – você tem a companhia dela.

Acho que o Belchior conhece um segredo sobre a vida que ninguém mais conhece. Ele entendeu, com uma sensibilidade única, a fúria que é tudo isso que mora dentro da gente. Poucas pessoas conseguem enxergar beleza na dor. É mais fácil fechar os olhos e ignorar. Porém, se tem uma coisa que entendi nesses últimos dias é que é preciso sentir, saber chorar e suportar dores que parecem insuportáveis.

Pare e pense. O que fazer quando dentro de você já não cabe mais a própria vida? Quando o seu próprio corpo parece não ser mais um bom lugar para estar? Quando não há saídas, respostas ou (pelo menos) um caminho? E como aguentar tudo isso sem pirar?

Bom, Belchior encontrou na poesia resposta para muitas dessas perguntas. “Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, cantou o nordestino em 1977. É bonito. E é exatamente tudo aquilo que todos nós queremos. Mas, a vida não é simples. E parece que ela não se preocupa muito com o que a alma deseja.  Não importa se você precisa ir devagar ou de tempo para curar uma ferida. A vida não espera para te mandar a próxima pancada. Você é que tem que aprender a conviver com elas. Suporta-las.

É preciso ter consciência para fazer isso. Não adianta procurar culpados ou apelar para o divino, você está no comando. Como li em um post de facebook: “viver é ser atropelado diversas vezes, Belchior”. É cair e levantar. Tantas vezes for preciso. Eu sei, chega uma hora em que cansa. Cansa muito. E parece que nunca vai passar. E talvez, não passe. E aí você tem duas opções: continua a levantar – mesmo cansado – ou ficar no chão. Você está no comando. A vida é sua.

Não é fácil. E cada um carrega um enorme infinito dentro de si. Belchior parece entender esse infinito como ninguém e talvez esse seja o grande segredo. Um dia, ele resolveu ser infinito sozinho. Ou não. Ninguém sabe onde a ausência levou o rapaz latino-americano. É como uma lenda. Será que existiu mesmo? O coração selvagem que canta um Brasil de sentimentos parece ter medo daquilo que deixou por aqui. Ou, talvez, a ausência de se perder no mundo foi a única maneira de se encontrar.

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