Cidade

A cidade presente

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Foto: Mariana Amorim

Publicado originalmente: 12.09.2016

A minha geração é a geração do apartamento. A insegurança já era algo absurdamente preocupante no começo dos anos 2000 e os tempos já não estavam favoráveis para aventuras nas ruas. O trânsito e a violência tiraram o direito de brincar na calçada. Nós, as crianças, nos reuníamos para correr na área livre do prédio, no estacionamento do condomínio ou nas escadas de incêndio. Na rua? Em hipótese alguma. Crescemos cercados de muros altos e cerca elétrica. De casa para escola, da escola para o curso de inglês, do inglês para casa. No fim de semana? Shopping. Pronto.

Lembro da minha alegria quando chegava as férias escolares. Época em que eu pegava um ônibus intermunicipal e depois de uma viagem de 5 horas estava no santo lar da vó materna. Interior era lugar de liberdade. Podia organizar campeonato de carimba na rua, jogar futebol na calçada, brincar de esconde-esconde no quarteirão. Era um mês longe da TV e com o pé no chão correndo nas calçadas. Depois, no início da adolescência, juntava aquela turma de primos (leia: os melhores amigos da vida) e era hora de se aventurar nos shows da pracinha na cidade de praia. Voltar para casa só de manhã, longe da supervisão dos adultos. Só a gente. Donos do próprio nariz. Era liberdade no sentindo puro da palavra.

Entre a infância e a adolescência nunca tive oportunidade de fazer nada disto na minha cidade. Depois dos 18 anos comecei a sair a noite e descobrir uma Fortaleza que acontece quando o sol some. Porém, a preocupação é dobrada. A rua é iluminada? Fica em que bairro? Tem onde estacionar?? Termina que horas? Pois é. Fortaleza não é uma cidade para ser “explorada”. Andar de ônibus só durante o dia. Andar à pé só se for realmente necessário. Mulher e sozinha? Não. É perigoso demais. A minha geração não foi criada para isso. Somos medrosos, preocupados e – até um certo ponto – acomodados.

Porém, esse papo de ocupar a cidade vem ganhando espaço. E um amigo, de uma geração diferente da minha, me convidou para um desafio: uma caminhada pelo centro da cidade em sábado a tarde. O destino era o Centro de Arte e Cultura do Dragão do Mar. Pois, pronto. Bora lá.

Saímos às 16 horas. A luz é bonita nesse horário, as coisas ganham uma cor especial. O meu amigo estava tranquilo, dono dos caminhos em que andava. Lógico, ele também tem medo. Mas ele não deixa isso atrapalhar as coisas e nem o impede de se aventurar uma vez ou outra.

Eu não. Olhava para um lado e outro o tempo todo. “Mari, relaxa”, ele me disse, uma ou duas vezes, até a gente virar a primeira esquina e eu me deparar com uma casa em estilo holandês. Gente, a coisa mais linda. Pronto. Esqueci o medo e a insegurança ali e passei a pensar: “Um tesouro desses no meio da minha cidade e eu não conhecia? Como assim?”

Lógico, eu já tinha ido ao centro da cidade umas mil vezes. Mas, sabe aquele papo de olhar as coisas de um jeito diferente? Foi isso. O sol já estava baixo e as lojas fechando. Não tinha pressa, trânsito ou estresse. Era calmaria. A cidade estava desacelerando e as pessoas pareciam mais leves.  A caminhada foi embalada por um bom papo sobre a vida, a infância, o cotidiano. E, de vez em quando, era interrompida  por uma pergunta minha em relação aos prédios bonitos que eu não conhecia e que estavam esquecidos pela poeira do concreto.

Foi uma tarde de surpresas. Passamos por praças e escolas que existem há séculos. Isso mesmo: mais de 100 anos. Vi uma família sentar na calçada e as crianças brincarem de bicicleta na rua (parecia o meu interior). Depois de muito explorar, chegamos ao nosso destino. E eu sorrindo de orelha a orelha por ter ganhado uma cidade de presente. Fortaleza é bonita. E não se resume a avenida Beira Mar. A aventura não terminou aí. Tem muito mais. Mas isso fica para outro dia. Outro texto. Outra história.

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